Armei-me em António Barreto e tirei várias retratos enquanto conduzia de casa até ao trabalho, da Graça até às Docas, sempre junto ao rio. As pessoas com quem me cruzei são na maioria velhos (a população activa já devia ter pegado ao trabalho), são avós com os netos, os sem-abrigos, um estranho casal (marido e mulher? mãe e filho? que abandona um táxi com ar de quem tem de se apresentar no tribunal) a adolescente que oferece o jornal Metro, o arrumador ressacado, os reformados que bebem um bagaço às 10h da manhã, um ou outro engravato atrasado para uma reunião e os desportistas saudáveis que correm junto ao rio. Quase todos tristes, não vi sorrisos, nãõ vi roupas coloridas. Lisboa não é branca, as pessoas carregam consigo e com os seus problemas uma palette pobre: castanho, sépia e cinzento, caras e cores deslavadas, descosidas e coçadas. A arquitectura está velha, com graffitis e mensagens semi-tribais feias e incompreensíveis. Mas Lisboa, neste retrato de passagem, está essencialmente entaipada, há tapumes de metal por todo o lado e por um tempo indeterminado que dura várias legislaturas. Eu adoro Lisboa, mas olhando para os retratos que tirei, Lisboa está adiada.
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terça-feira, abril 17, 2007
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