terça-feira, março 21, 2006

(no entretanto) 2





"Hoje, o Parque Mayer é um quarteirão cultural entregue aos bichos. Lá dentro, o Teatro Variedades é dominado por várias gerações de gatos e pelo cheiro da sua característica urina; o Teatro Capitólio constitui provavelmente o maior pombal modernista da História e os restantes tímidos teatros e restaurantes estão aos caídos e às moscas. Mas não foi sempre assim, foi neste local que se atingiu o expoente máximo do Teatro de Revista, que teve nas décadas de quarenta e cinquenta um período áureo e fulgurante.
O declínio veio com a revolução de 25 de Abril de 1974, talvez porque o processo revolucionário em curso não precisasse de plumas e burlesco.
O último fôlego da revista dividiu-se pela Avenida, assentou arraiais no Politeama, pela mão do encenador Filipe La Féria, e morre lentamente no Maria Vitória, teatro que aguarda o abate e o início das obras da anunciada reabilitação e requalificação do Parque sob a batuta de Frank Gehry.
O Teatro Capitólio, o primeiro grande edifício do Movimento Moderno em Portugal, foi recentemente seleccionado para a lista World Monuments Watch - 100 Most Endangered. Os gatos e pombos no local não mostraram grande entusiasmo com a notícia."

Palavras retiradas de um texto escrito para a revista Zoot, revista de moda com sede em Portugal, escrita em inglês e com fotografias, essas sim, a sério. O último número (Nº2) é inteiramente fotografado e dedicado ao Parque Mayer. Infelizmente mais uma vez é o pessoal lá de fora a fazer algo pelos últimos destroços do que há cá dentro. Isto não é para dizer mal, também ha portugueses no projecto, mas o empurrão internacional é quase sempre necessário. Por falar nisso o único documentário de que ouvi falar sobre o Parque Mayer chama-se "Le Parque Mayer, vues et revue" de Simon Berjeaut e passou na Cinemateca a 20 de Outubro. O mesmo autor também publicou o livro "Le Téâthre de Revista, un phénomène culturel portugais". Conclusão: antes entregue aos estrangeiros do que aos bichos.

9 comentários:

Sr. Nefasto disse...

Vive e deixa morrer, meu caro.
O teatro de revista a mim, como a muitos, não diz nada. É um género gasto do passado. Coisas há que devem ser preserva das, outras nem por isso. Passaram.
É sempre preferível uma boa ruína a uma má recuperação.

tita disse...

ah! cá estão elas!

Sr. Funesto disse...

Eu sou pelo futuro do Parque Mayer e não pelo saudosismo do Teatro de Revista.

Aquilo que eu poderia ter alguma pena que desaparecesse sem registo são precisamente as ruínas. Eu sou fã de prédios aos caídos, empenas de sanitas penduradas, com o espelho e gel de barbear ainda ali, como se à espera que os antigos locatários voltassem. E ali há qualquer coisa de fuga generalizada a uma hecatombe. Alguém deveria avisar os figurinos abandonados que a próxima peça não vai chegar.

Curiosidade: Na primeira foto podem-se ver as traseiras do Hot Clube.

anita_vai disse...

O teatro de revista só pode ser comparado a fenómenos como os malucos do riso, fátima, o carnaval de torres, o colombo e a ponte 25 de abril em agosto: uma necessidade compulsivo-destruidora que reforça o patriotismo de grande parte da nossa população. Acho lindamente que existam. Sempre mantêm muita gente ocupada.

Sr. Nefasto disse...

Tens razão. Todos, mas mesmo todos, necessitamos de coisas de "mau gosto", eu oscilo entre a feira do relógio, os santos populares e o carnaval de torres. a primeira para comprar fruta, torresmos e brinhol e os segundos para comprar vinho e cerveja.

Aliás, acho que deviamos ter ideias para puxar Fátima da categoria pimba-3ª idade para o mesmo patamar dos santos populares, talvez vendendo menos velas e mais vinho.

Vou já fazer uma t-shirt com com uma fatima, uma sardinha, uma mini, e a marina mota.

Anónimo disse...

O teatro de revista fez a sua época, popular e divertida para provincianos de Lisboa e do País, mas a sua história é honrosa. Agora aquele espaço é o máximo, mesmo ao pé de tudo. Oxalá não seja uma porcaria de um Centro Comercial. Um ou dois teatrinhos está bem, mas é preciso é animal a malta, que à noite não vai para aquelas bandas. Sugestões aceitam-se. Eu propunha um Museu do Erótico aberto até às 24 horas.

Anónimo disse...

Só mais uma coisa: O Parque Mayer não entrou em decadência com o 25 de Abril. Só quem não o conheceu é que pode dizer isso. Tinha uns tirinhos, uns matraquilhos e uns restaurantes com sardinhas e coiratos. Ainda tinha o cantinho dos artistas, bar decadente com boémios decadentes. Eu sei porque andei por lá.
Abraço
E

O Meu Outro Eu Está a Dançar disse...

transformar o espaço e transformar o conceito do espaço. mudaram-se as vontades mas o que existe não corresponde e ainda não se tentou corresponder... fico à espera da proposta do frank gehry, se vier...

O Meu Outro Eu Está a Dançar disse...

ah! ainda assim ficaram umas belas fotografias!