domingo, fevereiro 04, 2007

De homens e Amendoins

Esta história dos amendoins levou-me a pensar onde, em que momento da minha vida ficou o gosto pelos amendoins cristalizado. Em que altura o cérebro decidiu fazer uma espécie de bookmark e definiu que de ali em diante todos os amendoins que comesse seriam implacavelmente comparados com aqueles escolhidos como sendo Os Amendoins.



Esse momento foi numas festas de verão da minha terra. Deveria ter por volta de 10 ou 11 anos e bebia as minhas primeiras minis, pagas com dinheiro que saia do meu bolso não do bolso do meu pai. Fazíamos tempo antes da tourada à vara-larga (touradas onde em vez de toiros entram vacas e em vez de toureiros entram os jovens da terra, meio bêbados, claro).



Estávamos sentados na primeira mesa da tasca do Dimas, esse velho pedófilo e exibicionista que mais se preocupava em espreitar as gaiatas que vinham da escola e lá paravam para comprar gelados de groselha do que em tratar de atender os fregueses. O sol do fim de tarde de Agosto, que é o que cheira melhor do todo o ano, porque cheira a planície madura, fazia brilhar as quatro cadeiras de patas ferrugentas e encostos de platex e a mesa de fórmica vermelha completamente riscada pelas décadas de dominó e sueca que sofreu.

Quase tão bom como as minis com amendoins do Dimas, era atirar com as pedras do dominó e as cartas espanholas contra o tampo da mesa. "Carta batida não é recolhida" diz-se e com razão. São mesmo batidas à séria.



Nas paredes velhas fotografias de equipas do Sporting que já tinham morrido quando eu nasci. Numa terra onde quase todos são do Benfica era engraçado que a melhor tasca fosse do Sporting.



É a soma destes cheiros e brilhos que definiu o meu standard de amendoins, e minis, e tascas.



Que será feito do velho Dimas, esse biltre perverso?

Já não entro na tasca há onze anos, não deverei entrar nunca mais.

Passo à porta de três em três semanas, aceno para os meus conhecidos de infância, e para os velhos que já eram velhos quando eu lá ia, e que nem sequer vão ser pó quando eu for velho.

Mas não entro.

E se os amendoins já não tiverem o mesmo sabor?

3 comentários:

Sr. Funesto disse...

Este post agarrou-me mais que muitas crónicas do Lobo Antunes.

Quase que me apetece deixar crescer mais um braço para fugir a esta anormalidade de normalização.

anita_vai disse...

além de "dido",
só quero acrescentar aquela famosa frase:
nunca voltes aos lugares onde foste feliz.

comigo tem resultado: tenho uma belíssima colecção de memórias não-adulteradas.

quanto à normalização asséptica, eu gosto.
vivo bem com comida certificada, prefiro guardar a diferença para mim.

Sr. Nefasto disse...

e aquela famosa frase:
"somos aquilo que comemos"