segunda-feira, janeiro 14, 2008

continuo na mesma

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a caminho de almoçar com uma amiga, ela vira-se para mim e pergunta-me que fiz entre o natal e o fim de ano. digo-lhe que um retiro sabático, uma espécie de Ramadão alentejano, onde quase que não bebi álcool, tirando um copo de tinto às refeições - o que é profilático - e que mal comi doces e coisas do género, passando a maior parte do tempo num estado que variou entre o sono profundo e o sono ligeiro.
ela, algo desiludida, pergunta a medo: "mas não vais começar a preocupar-te com a saúde e a ter um comportamento responsável, pois não?"
de repente percebi que a minha amiga não queria nem por nada que eu deixasse de acelerar na auto-estrada do inferno em que ando à tanto tempo. porque alguém saudável e responsável não tem histórias do arco-da-velha para contar. não tem imprevistos inauditos, porque vive num são e monótono dia-a-dia.
não há pior companhia que a companhia sem histórias. a que conta com riqueza de detalhe uma iterminavel ladainha de banalidades inócuas.
realmente antes a highway to hell (cuja entrada aparece sempre que se pede a segunda aguardente velha no fim do jantar), do que o vazio do aborrecimento.
podemos sempre deixar de representar o papel que criamos, deixar o papel que os nossos amigos gostam que representemos, com o qual se sentem confortáveis. podemos sempre mudar. mas raramente surgem motivos para essa mudança. raramente vale a pena o esforço de ser melhor.

3 comentários:

josé louro disse...

A não ser uma cirrose...

miss_blythe disse...

sabes que a auto-estrada para o inferno tem dois sentidos como todas as outras e as peripécias não escolhem o lado em que atravessam.

sabes que podes adoptar qualquer papel, sabes que te podes tornar um fanático do exercício físico e arriscaria mesmo um equilibrado zen, mas o que vai distinguir sempre os teus verdadeiros amigos é a capacidade que ele têm de olhar para ti e no fundo, pedir que não percas nunca o teu sentido de humor que faz com que nunca, nada em ti possa ser vazio ou aborrecido.
porque é melhor para os outros se for caótico, mas quando se gosta, quer-se e bem e desde que não te leves demasiado a sério como as pessoas para quem viver é um fardo, a malta está cá a aplaudir-te e a ver-te passar, como se fosses o Putin na A8...

miss_blythe disse...

ps - gostei à séria que me chamasses "amiga".