sexta-feira, novembro 04, 2005

Favela Chic

Que distância existe entre os miúdos que dançam descalços entre paredes de lata e janelas de plástico e os brasileiros emigrantes dentistas-publicitários-actores acomodados nas cadeiras doutorais de pele genuína e o ar acondicionado da Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa?

Que distância existe entre o preto charrado que canta os meninos e a favela – que é problema social – e os imigrantes da favela que servem à mesa, cortam cabelo e limpam o shopping em Portugal? A distância de 23 euros? Que se compra na favela com um bilhete do Seu Jorge?

A arte é um produto para a direita, dizia Brecht. Feita pelos pobres, paga pelos ricos.

Seu Jorge, tão parecido com um Jim Morrison, de cigarro preso entre as cordas da guitarra grita a liberdade e a justiça. De pé aplaudimos e aplaudimos, com os pés confortavelmente sobre a alcatifa da Aula Magna. Seu Jorge, emocionado pela magia do momento salvador do problema social, chora.

Lágrimas sobre o palco de madeira exótica da Aula Magna.

Que distância existe entre o palco de pau-brasil e o chão de lama da favela do Brasil?

Um brasileiro bem alimentado e bem vestido pega no celular e grita “Ei cara, este Seu Jorge é do caralho! Onde é que você está? Há! Ai ao fundo, eu estou aqui bem no meio da plateia.”

Que distância existe entre a merda-que-dança-e-sofre na favela e a merda-de-não-mexe-o-rabo-da-cadeira-de-pele na primeira fila?

Nenhuma.

Vou para casa encher a cabeça de álcool.

3 comentários:

Anónimo disse...

Texto bom. Muito bom.

Marianne

Sr. Funesto disse...

Antes de ler este texto, tinha algo a dizer sobre ontem à noite, agora já não. Obrigado por contribuir assim para o meu opróbrio, Sr. Nefasto.

Sr. Nefasto disse...

Essa agora!
O nosso problema é julgar-mos que somos coisa diferente daquela que na verdade somos.
Essa diferença é-nos quase sempre dolorosa, quando na verdade não passa da ironia crua da vida.
Bem faríamos em aceitar com um sorriso brasileiro a mecânica metafísica da vida.
Nada do dito empobrece o vivido, apenas acrescenta outra perspectiva.

Este barco anda desgovernado, sempre andará, mais vale apanhares todo o rum que houver.

Um grande abraço, caro sócio.